Destaques: Ilustradores e quadrinistas brasileiros ganham espaço no exterior

Nova geração de autores visuais faz sucesso lá fora e vêm se firmando no mercado internacional

Era agosto do ano de 1941 quando Walt Disney correu os olhos sobre uma série de gravuras apresentadas a ele por um senhor esguio, de meia idade, com um bigode farto e voz contida. O homem que estava frente a frente com o criador do Mickey Mouse era José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), o J. Carlos – ilustrador, quadrinista e chargista –, considerado o maior cronista visual do Brasil na primeira metade do século 20. 

O encontro dos dois aconteceu no saguão do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e Disney – que estava excursionando pela América Latina em busca de ideias para futuras produções – ficou tão maravilhado pelo estilo do brasileiro que o convidou de pronto para trabalhar em seus estúdios nos EUA.

J. Carlos educadamente recusou o convite, mas fez questão de enviar para o grande pioneiro do ramo da animação um desenho seu de um papagaio, que de acordo com alguns pesquisadores acabou servindo de inspiração para a criação do Zé Carioca. Hoje, mais de meio século após a morte de J. Carlos – talvez um dos primeiros a abrirem as portas do mercado internacional para desenhistas do nosso país –, o talento de uma nova leva de ilustradores e quadrinistas brasileiros segue ganhando destaque mundo afora.

Entre os principais nomes dessa safra de artistas está Butcher Billy, pseudônimo do ilustrador Bily Mariano da Luz. O curitibano de 43 anos ganhou notoriedade por criar uma coleção de ilustrações únicas que reimaginavam ídolos da música pop como Morrissey, Ian Curtis e Billy Idol na pele de super-heróis da Liga da Justiça. 

“A alcunha de Butcher Billy surgiu em 2013, quando eu trabalhava em agências de publicidade como designer gráfico, e estava muito frustrado com o dia a dia corporativo. A ideia era criar um projeto diferente do que eu fazia no trabalho, com o intuito de extravasar a criatividade, sem limitações, apenas por diversão mesmo”, explica o designer, que hoje vive exclusivamente da sua arte.

Logo que deslanchou, o projeto ganhou voz própria e começou a atrair a atenção do mercado internacional.

“As primeiras artes começaram a ser muito compartilhadas em redes sociais e postadas em blogs. Isso me deu um gás para continuar. Depois de uns meses, passei a receber convites de portais, revistas e jornais estrangeiros, tanto para ser publicado, quanto para ser entrevistado. Foi a partir desse momento que apareceram as primeiras propostas vindas do mercado internacional para me envolver em projetos editoriais e da indústria de entretenimento”, relembra o artista.

Mantendo sua inspiração na cultura pop, Billy começou então a produzir no fim de 2016, capas de HQs no estilo dos anos 80 que se baseavam em episódios do seriado “Black Mirror”, da Netflix.

As ilustrações fizeram tanto sucesso na web que o criador da série, o britânico Charlie Brooker, convidou o brasileiro para criar um poster para o programa.

“Eu estava postando no Twitter alguns trabalhos inspirados nos primeiros episódios de ‘Black Mirror’, e eles acabaram chegando até o criador da série, que entrou em contato comigo quase que imediatamente com ideias para uma nova temporada que estava para começar a ser produzida. Continuamos conversando e no fim de certo”, relembra Billy.