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A diplomacia brasileira sinalizou favoravelmente à Rússia em
uma reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU nesta semana. Em paralelo, o
Brasil tenta manter o abastecimento de fertilizantes e também comprar de Moscou
armas pesadas (como mísseis, sistemas de defesa antiaérea e barcos), além de
tecnologia nuclear.

Agindo dessa forma, o Brasil adota postura semelhante à de
outros países do bloco Brics, como África do Sul e Índia. Coincidência? É cedo
para dizer, mas ao menos na Ucrânia já há uma percepção de que o Brasil está se
alinhando a Moscou. Ao menos foi isso que percebi em mais de dois meses de
cobertura jornalística em território ucraniano.

Independente de quem torce a favor ou contra isso, quais
serão os riscos e as oportunidades, caso o Brasil decida mesmo adotar essa posição?
Ou ainda: será que o Brasil está blefando ao sinalizar para a Rússia, com o
objetivo de obter mais vantagens em negociações com seus aliados ocidentais
tradicionais?

O Brasil sempre foi visto no exterior como um “país
pêndulo”. Ou seja, adota uma posição chamada de pragmática, não apoia nenhuma
potência automaticamente. Fica em cima do muro até ter certeza sobre qual lado
oferecerá mais vantagens.

A fama vem, em parte, da Segunda Guerra Mundial. O Brasil
não entrou no conflito essencialmente por discordar do nazismo, mas por ter
navios afundados pelos alemães e por uma oferta de recursos dos Estados Unidos
para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional.

A postura de pêndulo é possível porque o país não está
comprometido com uma rede de alianças internacionais, como ocorre com muitos
países ocidentais.

Mas, voltando ao contexto da guerra da Ucrânia. O Itamaraty
vem adotando uma posição aparentemente contraditória. De um lado, vem
condenando a invasão russa em fóruns como o Conselho de Segurança e a
Assembleia Geral da ONU, e de outro, vem trabalhando para que a Rússia não seja
isolada – conforme querem as potências ocidentais. O país se absteve, por
exemplo, na votação pela suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos. O
Itamaraty diz que isso é uma posição de “equilíbrio” e não de “neutralidade” –
seja lá o que isso signifique.

Nesta semana, o Brasil manobrou para esvaziar uma resolução
do Conselho de Direitos Humanos da ONU, segundo o colunista do UOL Jamil Chade.
A ideia era retirar do texto acusações diretas contra Rússia em relação aos
supostos crimes de guerra e impactos do conflito na atual crise mundial de
alimentos. O argumento é que, antes de fazer acusações contra a Rússia na
promoção da guerra, é necessária uma investigação.

Assim, a ação pode ser interpretada como uma tentativa de
abrandar os ânimos e evitar a continuidade da escalada do conflito.

Questionado por Jogos de Guerra sobre a ação de seus
diplomatas na 34ª Sessão Especial do Conselho na última quinta-feira (12), o
Itamaraty afirmou que “o Brasil apoia um Conselho de Direitos Humanos forte,
independente e imparcial”.

“Durante os debates, o Brasil considerou ser necessário
realizar, com a brevidade possível, investigações independentes, objetivas e
transparentes das alegadas violações de direitos humanos na Ucrânia, com
destaque ao papel da Comissão de Inquérito estabelecida pelo Conselho de
Direitos Humanos para esse fim, com apoio do Brasil”, afirmou a pasta.

“Durante as negociações, o Brasil propôs sugestões de
aperfeiçoamento da linguagem, com o objetivo de zelar pela imparcialidade do
Conselho, evitar a polarização excessiva, promover o equilíbrio e preservar os
espaços de diálogo necessários à solução negociada do conflito”, disse o
Itamaraty por meio de nota.

Mas a ação também pode ser vista como uma tentativa de
explorar a oportunidade de apoiar Moscou num momento difícil – com o objetivo
de obter vantagens, assim como parecem estar fazendo os outros Brics.

A oportunidade mais evidente é a manutenção da compra de
fertilizantes. A Rússia é a fonte de cerca de um quarto dos fertilizantes
consumidos pelo agronegócio no Brasil. Moscou já anunciou que limitaria
exportações para países “hostis”, mas o Brasil ficou de fora dessa lista e
agora recebe não apenas sua cota pré-guerra, mas parte dos insumos que seriam
destinados à Europa.

Em tese, o Brasil não precisaria necessariamente comprar
seus fertilizantes da Rússia. Os russos abrigam duas das maiores empresas
fornecedoras mundiais, mas há ao menos outras oito espalhadas pelos Estados
Unidos, Europa, China e Israel.

Pelo fato do fertilizante ser uma commodity, seu preço tende
a variar de forma homogênea, independente do fornecedor. Mas substituir
fornecedores não é uma tarefa simples e depende de muita negociação. Sem mencionar
que a Rússia pode oferecer preços mais competitivos, por estar em uma situação
de embargo – ela já vem fazendo isso com o petróleo.

Por ora, a operação de compra de fertilizantes da Rússia não
coloca o Brasil sob o risco de sanções ocidentais. Isso porque, embora o
Ocidente esteja tentando isolar a Rússia economicamente, há um medo de uma
crise mundial de alimentos. Por isso, os Estados Unidos afirmaram que não é
proibido comprar fertilizantes da Rússia.

Polêmica da compra de armas

Mas há um ponto muito mais polêmico em jogo do que a questão
dos fertilizantes: a compra de armas pesadas da Rússia.

A comitiva do presidente Jair Bolsonaro que visitou a Rússia
antes da guerra não tinha características apenas de comércio. Integrantes
especializados trataram do interesse brasileiro em comprar foguetes lançadores
de satélites e mísseis hipersônicos, sistemas de mísseis teleguiados, baterias
de defesa antiaérea e navios de patrulha oceânicos.

Eles demonstraram interesse também em negociar a tecnologia
russa de pequenos reatores nucleares, capazes de impulsionar embarcações civis
ou gerar energia elétrica em áreas remotas do país.

Algumas dessas tecnologias vêm sendo negadas ao Brasil há
anos pelos seus parceiros ocidentais. Mas se a moeda de troca para obtê-las da
Rússia for apoio diplomático e comercial, qual é a garantia de que Moscou
cumprirá sua parte do acordo?

Só para lembrar, o governo de Vladimir Putin negou até a
véspera da guerra que tinha a intenção de invadir a Ucrânia. Hoje, sabe-se que
a guerra vinha sendo planejada há anos.

Não interessa aos Estados Unidos que o Brasil tenha
tecnologia militar de ponta. Mas isso não faz da Rússia um aliado automático,
pois Moscou tampouco tem interesse em compartilhar tecnologia militar sensível.

Ao menos até antes da guerra da Ucrânia, havia uma grande
desconfiança da Rússia em relação ao Brasil e vice-versa, segundo o coronel da
reserva da Força Aérea Jorge Schwerz. Ele coordenou as negociações para a
compra do sistema de defesa antiaérea Pantzir, da Rússia, durante o governo
Dilma Rousseff. Hoje é autor do canal especializado em defesa Ao Bom Combate,
no YouTube.

“Essa desconfiança vinha da Guerra Fria, o Brasil era visto
como um país sob forte influência norte-americana. Havia desconfiança dos dois
lados”, afirmou ele. Segundo Schwerz, o temor dos russos era compartilhar a
tecnologia com o Brasil e, após uma mudança de governo por aqui, esses segredos
serrem repassados para os americanos.

No caso do Pantzir, a negociação não foi concluída por
questões orçamentárias, mas a desconfiança provocava grandes atrasos nas
negociações e na troca de informações sobre o equipamento.

Porém, de acordo com o coronel, essa era uma realidade
pré-guerra da Ucrânia. Na opinião dele, não é possível saber se no atual
contexto de isolamento internacional e necessidade de recursos financeiros, a
Rússia estaria ou não disposta a vender tecnologia militar avançada.

E há outro ponto a ser considerado: em períodos de paz (no
Brasil), a prioridade deve ser para desenvolver e sustentar uma base industrial
estratégica para o país, segundo o professor Eduardo Siqueira Brick,
pesquisador do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e
Competividade Industrial da Universidade Federal Fluminense (UFFDefesa).

“Isso significa priorizar o desenvolvimento de produtos de
defesa nacionais e adquiri-los para as Forças Armadas ao longo do tempo,
fazendo atualizações contínuas durante o processo. Aquisições no exterior,
somente se forem contribuir para o desenvolvimento dos produtos nacionais, via
alguma transferência de tecnologia não dominada pelo país”, afirmou.

Por exemplo: o Brasil tem sistemas de defesa antiaérea muito
limitados – que servem para proteger apenas pequenas regiões ou unidades
militares.

Se o Brasil comprasse da Rússia o sistema de defesa
antiaérea de longo alcance S-300 (que vem sendo usado na guerra da Ucrânia
pelos dois lados), sem ter nenhuma pesquisa prévia na área ou empresa
capacitada para absorver a nova tecnologia, em poucos anos ele ficaria obsoleto
e se tornaria sucata.

“No caso do S-300, como estamos com baixa competência nesse
setor, isso só iria consumir recursos sem a desejável transferência ou absorção
de tecnologias críticas”, disse Brick. Segundo ele, compras desse tipo só se
justificariam na iminência de um conflito, o que não é o caso no Brasil.

“Qualquer aquisição de produto estrangeiro se encaixaria na
mesma lógica. Períodos de paz devem ser aproveitados para desenvolver a
capacidade industrial e tecnológica própria. Qualquer compra de produtos de
defesa no exterior que não contribuam muito para essa capacitação deveria ser
evitada. Isso porque o orçamento é limitado e essas compras simplesmente sugam
todos os recursos disponíveis”, disse ele.

“É o que aconteceu em muitos casos nos últimos 50 anos.
Empresas importantes como Engesa e Mectron faliram, mas o Brasil adquiriu
carros de combate usados e mísseis no exterior”, afirmou o professor.

Um caso de sucesso foi o da Força Aérea. O Brasil comprou
aviões a jato estrangeiros ao longo de anos, como o Xavante, na década de 70,
que foi licenciado por uma empresa italiana e produzido no Brasil. O mesmo
aconteceu com o AMX na década de 90. Essas experiências deram subsídio para que
a empresa Embraer desenvolvesse sua própria tecnologia, se tornando hoje
competitiva no mercado internacional de aviões militares a jato.

Ou seja, não é desejável tratar a compra de armas pesadas
como produtos “de prateleira”. Além disso, é preciso que o sistema comprado se
adapte aos sistemas já existentes. Em outras palavras, não é aconselhável fazer
compras de oportunidade (por causa da situação desfavorável atual da Rússia). É
preciso toda uma preparação e estratégia do país que pode demorar décadas para
ser concluída.

O Brasil possui, por exemplo, uma pesquisa prévia de mísseis
hipersônicos na FAB, chamada 14-X. Esse projeto poderia se beneficiar de um repasse
de tecnologia russa. Mas a Rússia é o único país do mundo que tem essa
tecnologia em operação – ela foi testada pela primeira vez em batalha na
Ucrânia neste ano. Será que Moscou repassaria mesmo esse tipo de tecnologia?

O risco é que o Brasil se queime no cenário diplomático
apoiando a Rússia, tendo apenas como garantia uma série de promessas. Não seria
melhor, como no caso dos fertilizantes, exigir o envio da tecnologia antes de
tentar malabarismos diplomáticos nos fóruns da ONU?

Sem falar no dilema ético de apoiar um país que invadiu um
vizinho pacífico e supostamente cometeu crimes de guerra contra civis ao fazer
isso – mesmo que a Rússia tenha sido motivada por uma expansão alegadamente
predatória da OTAN (aliança militar ocidental) para leste.

Por outro lado, há a hipótese do Brasil estar blefando. O
Itamaraty tentou amenizar as críticas à Rússia no Conselho de Direitos Humanos
da ONU, órgão que tem importância prática bastante limitada em comparação a
outros fóruns. As mudanças sugeridas pelos diplomatas brasileiros nem foram
acatadas e o Brasil acabou dando seu voto para um texto final negativo para a
Rússia.

Nessa hipótese, a ação diplomática não seria um apoio a
Moscou, mas um recado para o Ocidente. Ele diz que o Brasil está aberto a
negociar com quem quer que seja, independentemente da ligação com Washington no
passado.

Isso poderia fazer os Estados Unidos e seus aliados agirem de forma mais amigável em relação aos assuntos brasileiros. Essa hipótese tem mais a cara do Itamaraty, mas não deixa de ser um jogo perigoso.

Assim, deixo a pergunta: o Brasil está sendo ingênuo ou pragmático? Cabe ao leitor responder.

Fonte: Gazeta do Povo

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