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Destaques: Pai de Lorenza contesta versão de que a filha fazia o uso de bebidas alcoólicas

Marco Aurélio Silva evitou respostas que poderiam atrapalhar as investigações sobre a morte da filha

O aviador aposentado Marco Aurélio Silva garantiu que sua filha, Lorenza Maria Silva de Pinho, nunca consumiu bebida alcoólica. Em entrevista ao O TEMPO, em um hotel de Belo Horizonte, nesse domingo (11), ele afirmou que tanto a filha, quanto o marido dela, o promotor André Luís Garcia de Pinho, não gostavam de beber. 

A fala contradiz o relato que os dois filhos mais velhos do casal deram à reportagem no sábado (10). Os adolescentes, de 15 e 16 anos, disseram que a mãe tomava muitos remédios para depressão e, eventualmente, os misturava com álcool. “Minha filha nunca bebeu. Minha filha não gostava nem de uma cervejinha”, afirmou o aposentado.

Marco Aurélio disse ainda ter conhecimento de que Lorenza havia passado a usar um medicamento “muito forte” depois de fazer uma bariátrica, há seis meses. O médico Bruno Sander, que está com a guarda dos cinco filhos de Lorenza, foi o responsável pela cirurgia e pela receita do medicamento.

Morte
Lorenza morreu no último dia 2, no apartamento em que morava com a família, no Buritis, na região Oeste da capital. A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar a morte. Suspeito de matar a esposa, o promotor está preso em um quartel do Corpo de Bombeiros. 

Marco Aurélio não respondeu algumas perguntas. Segundo ele, o Ministério Público o instruiu a não falar sobre os assuntos que tenham sido abordados nos depoimentos. Dessa forma, ele não afirmou se acredita em feminicídio. O pai de Lorenza, porém, frisou que a filha era impedida pelo marido de ter relação com os parentes.

Robson Lucas da Silva, advogado de André de Pinho, disse que não procede a informação de que Lorenza era impedida pelo marido de ter contato com a família. “Os filhos do casal contam o contrário, que o André estimulava que Lorenza mantivesse contato de harmonia e proximidade com parentes dela. Mas ela nutria uma mágoa em relação ao pai, sobre o que culminou na separação entre o pai e a mãe dela”, afirmou.

Documento
Marco Aurélio Silva ficou surpreso com o suposto testamento que dá a guarda dos netos para Bruno Sander, mas disse que a decisão do juizado de menores é para ser cumprida.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Marco Aurélio Silva:

Como era sua relação com a Lorenza?
Um pouco estremecida, por influência do André. Ele nunca foi favorável a um relacionamento da mulher dele com os parentes mais diretos, como a irmã, eu e a tia. André sempre procurou criar distanciamentos.

Que sinais havia de que isso acontecia?
Ela falava. Eu estava em Tiradentes, em janeiro do ano passado, e quis vir aqui. Eu já estava proibido pelo André de passar pela casa dele, mas a minha mulher, Andréa, pediu: ‘Vamos passar lá’. Liguei para a Lorenza e disse: ‘Estou em Tiradentes e, antes de ir para Uberaba, vou passar em Belo Horizonte’. Quando estava na BR–040, perto da entrada de BH, ela disse: “Ah, papai, não vem não, tá todo mundo dormindo”. Isso devia ser uma hora da tarde. Para bom entendedor, uma palavra basta. Lógico decidimos seguir para Uberaba. Depois, ela comentou para minha mulher que o André não queria a nossa presença lá.

Há quanto tempo vinha acontecendo essa situação de afastamento? Não sei precisar há quanto tempo, mas isso acontecia há muito tempo. Causar atrito entre pai e filho é muito complicado, porque o filho briga com você hoje, mas dali meia dúzia de meses volta a falar com você. Esse afastamento comigo foi muito difícil. Com a mãe dela e a tia foi mais grave.

E a sua relação com o André? Chegaram a discutir?
Sim. Mas gostaria de ressaltar uma coisa: eu estou prestando testemunho no caso da Lorenza. Por ser testemunha, o Ministério Público solicita que eu não transmita nenhum dos dados que foram por mim prestados nesse relatório. Foram dois: um à Polícia Civil, de quatro a cinco horas, e o outro, no Ministério Público, durante três a quatro horas. O que relatei ao Ministério Público e à Polícia Civil não posso comentar porque prejudica as investigações. Prejudicando as investigações, prejudica a minha filha.

Os seus netos disseram que o senhor não tinha contato com eles há três anos e que não conheceria a rotina da sua filha. Isso é verdade? 
Não. Tanto eu tinha contato com eles que, há três anos, eles passaram um Natal e um Ano Novo na minha casa, em Uberaba. Não é fato. Eu falava bastante com a Lorenza. Bastante dentro das normalidades, já que hoje você conversa muito via WhatsApp, e essas conversas via WhatsApp ela falava que eram bloqueadas pelo André.

O senhor acha que sua filha tinha problemas com a bebida?
Isso foi uma das coisas que me assustou. Minha filha nunca bebeu. Minha filha não gostava nem de uma cervejinha. Se nós íamos comer uma pizza, e eu gosto muito de vinho, eu dizia: “Filha, toma um copinho comigo para me ajudar, porque uma garrafa é muito grande”. Ela dizia: “Ah, papai, quero Coca-Cola”. Ela gostava era de Coca-Cola. Eu e todos os familiares da Lorenza nunca vimos ela beber na vida. O André também não bebia. 

E sobre os remédios controlados, o senhor sabia?
Sei que ela tomava alguns remédios, como Rivotril. E depois, com acesso a algumas coisas, nós percebemos que o doutor Bruno (Sander), médico responsável, fez uma cirurgia na Lorenza seis meses atrás e receitou um medicamento que eu não conheço, mas a minha mulher que tem um pouco de depressão disse: “Isso é forte demais”. (…) Então, esse remédio muito forte que ela tomava tinha sido receitado pelo doutor Bruno (Sander). Mas acredito que tenha sido necessário. O Bruno é um médico conceituado. Não acredito que iria receitar um medicamento se não fosse necessário. 

O senhor acredita que Lorenza tenha sido vítima de feminicídio?
Essa resposta consta no meu depoimento ao Ministério Público e à Polícia Civil. Mas aproveitando Guimarães Rosa, um dos meu ídolos da literatura, o Riobaldo fala o seguinte: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. É isso que posso falar, em virtude de o meu depoimento estar sob sigilo. 

Um possível seguro de vida poderia ser motivação para um crime?
A conjugação do verbo “poderia” é difícil de responder. Poderia é imagem. Eu imagino que… Não sei, realmente não sei, se poderia ter um problema de seguro de vida. Não estou ciente. Mas sei que o senhor André estava extremamente endividado.

Tem dez dias que a Lorenza morreu, e o senhor já celebrou a missa de sétimo dia, mas ainda aguarda o sepultamento. O senhor tem alguma resposta de quando o corpo será liberado?
A reposta do IML para mim, via meu advogado, é a de que eles têm prazo para a conclusão do inquérito. Trinta dias vence no dia 2 de maio. Fora isso, ninguém me deu (resposta). Eu não sei. E eu obedeço a justiça.

Qual foi a sua reação quando viu um testamento em que sua filha e seu genro deixavam a guarda dos filhos para Bruno Sander. O senhor consegue compreender o motivo?
Primeiro, eu não vi documento. Nós viemos a saber através do promotor da infância. Eu estava saindo do Ministério Público com nosso advogado, o doutor Tiago Rezende, quando meu telefone tocou e me falaram que o juiz de menores havia decidido que, provisoriamente, a guarda dos meus netos ficaria com o Bruno Sander, de acordo com uma carta. Ninguém falou em testamento assinado pelo André e pela Lorenza. Nesse momento, com essa pancada, a sorte foi que o meu advogado estava junto. Pedi: “Por gentileza, doutor Tiago, descubra sobre essa carta”. Eu não sei se é a assinatura da minha filha, não sei dessa carta e vi duas datas sobre ela na imprensa: uma fala em 2018, e a outra, em 2014. Se for 2014, acho mais estranho, porque minha filha e o marido deviam conhecer o médico Bruno Sander há uns dois anos apenas. Mas a decisão do Juizado de Menores é para ser obedecida. O que a Justiça fala é para ser obedecido.

Por fim, como está a saúde física e emocional do senhor?
Não estou bem. Quando saí do apartamento para falar com você, minha glicose estava em 400. Eu tomo insulina, duas cargas de insulina, três vezes por dia. Tive uma crise de pressão alta na segunda-feira (5) e tive que voltar para Uberaba para me consultar com meu médico. Minha mulher ficou com medo de que acontecesse alguma coisa. Eu fui para Uberaba, estou medicado, usando sedativos fortes, para procurar manter minha tranquilidade. Mas ninguém fica tranquilo nessa hora. Eu estou arrebentado, estou arrasado, estou explodido. Perdi uma menina, irmã gêmea univitelina, de 41 anos de idade. Só tenho duas filhas. Minha família era eu e a mãe de Lorenza! Eu perdi a Lorenza, senhora. Agora, sou eu e a Amanda. É uma coisa inimaginável.

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Fonte: Jornal Super / O tempo

Redação

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