Internacional: O secretário de Estado dos EUA foi até os palestinos, mas falar com quem? | Filipe Figueiredo

Internacional: O secretário de Estado dos EUA foi até os palestinos, mas falar com quem? | Filipe Figueiredo

O chefe das relações exteriores dos EUA, o secretário de Estado Antony Blinken, se encontrou com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, nessa semana que termina. Foi até Ramallah, na Cisjordânia, sede do governo palestino e, na prática, capital. O óbvio é que a viagem de Blinken, sua primeira ao Oriente Médio, sinaliza uma nova abordagem de Washington em relação aos palestinos. Ainda assim, seja qual governo for em Washington, ou em Israel, existe um desafio que se apresenta e que apenas os palestinos podem solucionar, sobre autoridade e representatividade.

Primeiro, os fatos. Blinken anunciou que a gestão Biden reabrirá o consulado em Jerusalém Oriental para tratar de questões palestinas. A missão foi fechada pelo governo Trump, que “aglutinou” suas funções na nova embaixada dos EUA em Israel, na cidade de Jerusalém. O ato, obviamente, não agradou aos palestinos e, na prática, foi um rebaixamento das relações com os EUA. A reabertura do consulado, que na prática é a embaixada dos EUA com a Palestina, sinaliza tanto a reversão do ato de Trump quanto uma ressignificação do papel de Washington na região e a busca por reaproximação.

Blinken também lamentou a mortandade das últimas hostilidades, especialmente de crianças, e anunciou que o governo dos EUA vai enviar mais 112 milhões de dólares para assistência e desenvolvimento. O montante se soma ao já prometido por Biden, totalizando 360 milhões de dólares, como uma forma também de compensar as verbas cortadas durante o governo Trump. Blinken expressamente falou da reconstrução da infraestrutura hospitalar na Faixa de Gaza, incluindo o único centro de testagem de Covid no território, que foi destruído em um ataque aéreo israelense.

Dinheiro e cooperação

A lógica das verbas de assistência é que, além do humanitarismo, a melhoria da qualidade de vida local proporcionaria menos conflitos e que menos palestinos tentarão imigrar, especialmente para os EUA. Os críticos dessa lógica afirmam que o dinheiro vai parar nas mãos de extremistas, como o Hamas, ou é usado para sustentar uma estrutura corrupta na Cisjordânia dominada pelo Fatah, com uma oligarquia controlando as verbas para seus próprios interesses. Ambos possuem sua parcela de razão, o que acaba sendo uma verdade desagradável.

Blinken foi categórico que o dinheiro não cairá nas mãos do Hamas, mas, com o perdão da sinceridade, surpreende ver toda essa certeza. Para ser cortês. O secretário de Estado também afirmou que o governo Biden vai se engajar para colaborar com o povo palestino, que uma solução de dois Estados é a única opção viável, que a paz é necessária, dentre outros comentários. Também se encontrou com Netanyahu, com quem discutiu segurança e a possível retomada do acordo nuclear com o Irã, algo que desagrada o atual governo de Israel e foi tema de declarações do premiê israelense.

Como escrito em coluna recente aqui no nosso espaço, se alguém quiser fazer um exercício de voltar para obstáculos anteriores, chega-se ao patriarca Abraão. Atualmente, entretanto, há um obstáculo que não existia antes. O momento para uma verdadeira paz duradoura era no início dos anos 1990, a oportunidade desperdiçada em Oslo. Aquele era o momento apropriado por diversos motivos, assim como existem várias razões para a oportunidade ter sido desperdiçada. Um dos motivos era o fato de que, naquele momento, existiam duas claras e legítimas lideranças, uma de cada lado.

Rabin era o premiê israelense, eleito democraticamente e com a negociação como bandeira eleitoral. Não se tratava de um “estelionato eleitoral” ou de uma traição aos seus eleitores. Ele estava fazendo o que foi eleito para fazer. Do outro lado estava Yasser Arafat, um dos fundadores do Fatah na década de 1950, líder da Organização para a Libertação da Palestina e presidente da Autoridade Nacional Palestina. Ela tinha críticos, claro. Para parte dos israelenses e do ocidente, ele era um terrorista. Para os islamistas, como o Hamas, era um líder fraco. Para os revolucionários mais à esquerda, fazia concessões demais.

Legitimidade e vácuo de liderança

Ainda assim, ninguém contestava sua legitimidade de negociar em nome dos palestinos. Podia não ser unânime, mas era respeitado, inclusive por seus inimigos. E hoje? Quem é a liderança palestina? Quem poderia assinar um documento ou um tratado? Mahmoud Abbas já teve essa legitimidade, uma década atrás. Hoje, aos 85 anos, é uma figura pouco conhecida pelos jovens, frequentemente ignorado pelos extremistas e, em geral, visto como alguém cujo “tempo” já passou. Suas chances passaram e ele está, desde 2010, no poder de maneira “provisória”, até que eleições possam novamente ser organizadas.

Mesmo que Abbas renuncie e se retire para um papel de conselheiro ou de depoente da História, como importante negociador palestino, quem ascenderia ao seu lugar? Primeiro, a divisão na política palestina, com o Hamas em Gaza e o Fatah na Cisjordânia, com o complicador da crescente popularidade do Hamas com os jovens palestinos na Cisjordânia, especialmente perante o avanço dos assentamentos israelenses. E essa divisão também possui um desdobramento internacional, com o Egito apoiando os seculares do Fatah e a Turquia como maior aliado dos islamistas do Hamas.

O Hamas, atualmente, lambe as próprias feridas e certamente passa por uma reorganização interna, após as baixas sofridas nas últimas hostilidades. Além do possível vácuo de poder interno, o Hamas não é visto como legítimo por Israel ou pelos EUA, o que necessitaria uma mudança radical do grupo para ser solucionado. Já o Fatah passa, por anos, por um processo de feroz luta intestina para a eventual sucessão de Abbas. Um agravante dessa luta interna é o fato da organização priorizar lideranças mais velhas, do círculo de Arafat, correndo o risco de cair em uma gerontocracia.

Não seria a primeira vez que um suposto respeito aos líderes mais antigos resultaria numa gerontocracia, e não seria a primeira vez que isso seria ineficaz. Vide a primeira metade dos anos 1980 na URSS, com o último ano de vida de Brejnev, Andropov e Chernenko. No caso palestino, o perfil demográfico é de uma população muito jovem, ainda por cima. Um dos principais nomes dessa disputa, mais jovem e respeitado, foi levado pela pandemia de covid-19, o diplomata Saeb Erekat. O atual líder de gabinete, Mohammad Shtayyeh, é outra possibilidade, visto como bom gestor perante a pandemia, mas pouco ambicioso.

Outro nome é Nasser al-Qudwa, líder de uma corrente dissidente dentro do Fatah que possivelmente resultaria numa lista paralela nas eleições legislativas. Sobrinho de Arafat, ele foi formalmente afastado por Abbas em 2021. Também diplomata, depõe contra ele o fato de residir em Nova Iorque. Outro possível sucessor é um dos nomes mais populares ligados ao Fatah na Cisjordânia, Marwan Barghouti. Líder da corrente Tanzim, dissidência do Fatah, foi um dos comandantes da Segunda Intifada, de 2000 a 2005. Supostamente ele não deposita mais confiança em um processo negociado.

Outro agravante é o “detalhe” de que ele está preso, condenado a cinco penas perpétuas em uma corte israelense. Ele não apresentou defesa, afirmando que o julgamento era ilegítimo. O governo israelense já teria se recusado, mais de uma vez, a negociar sua libertação ou realizar uma troca de prisioneiros que inclua uma figura vista como perigosa por Israel. Barghouti seria capaz até de unir o Fatah e o Hamas, mas o faria provavelmente para realizar uma nova intifada, não necessariamente iniciar negociações. Seu raciocínio, entretanto, é um pouco mais complexo do que isso.

Para ele, as negociações dos anos 1990 foram consequências da Primeira Intifada. Ou seja, uma radicalização e um levante melhorariam as chances de negociação, dariam maior poder de barganha. É difícil dizer, já que a situação hoje é bastante diferente, especialmente no que concerne aos países árabes e suas relações com Israel e com os palestinos. De qualquer forma, o buraco da legitimidade permanece. As eleições, novamente adiadas, tanto por questões sanitárias quanto políticas, poderiam solucionar esse problema? Talvez, mas esse é mais um dentre o rol de problemas que precisam ser resolvidos antes de se pensar em negociações ou em acordos.

Fonte: GAZETA DO POVO

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