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Prefeituras em MG tentam driblar estoques críticos de medicamentos para pacientes com Covid-19

funcionários da saúde em hospital
Unidades de saúde sofrem com estoques críticos de medicamentos (FOTO ILUSTRATIVA: Amanda Dias/BHAZ)

Por Fernanda Canofre

Municípios de Minas Gerais estão correndo atrás de empréstimos, transferindo pacientes para outras cidades e reforçando pedidos por medicamentos junto ao poder público para tentar driblar a falta de insumos para atender pacientes internados em UTIs em decorrência da Covid-19.

O governo do estado reconhece que os estoques atuais estão em “nível não recomendável para o enfrentamento da pandemia”.

“Estamos numa batalha pela busca de medicamentos. Diversos municípios passaram a ter dificuldades nessa compra e o Estado conseguiu uma quantidade expressiva de medicamentos para facilitar o trabalho das prefeituras”, disse o governador Romeu Zema (Novo) nesta quinta-feira (15), ao anunciar que uma remessa de sedativos deve chegar nos próximos dias.

Na quarta, o Ministério da Saúde disse que aguardava para esta quinta a chegada de 2,3 milhões de medicamentos para intubação, que foram doados por empresas brasileiras e saíram da China.

Além disso, o secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, afirmou que o governo efetivou compras unilaterais, com previsão de chegada de 150 mil ampolas de sedativos a partir da próxima semana.

“Hoje esse é o maior problema na manutenção de leitos, alguns já foram fechados por falta de medicamento”, afirmou ele.

A situação enfrentada em Minas é parte de uma crise nacional. Na terça-feira, o governo de São Paulo enviou um ofício ao Ministério da Saúde afirmando que precisa receber medicamentos do kit intubação em 24 horas para evitar o desabastecimento, como publicado na coluna Mônica Bergamo.

Minas recebeu uma remessa de bloqueadores neuromusculares (usados nos kits intubação) no fim de semana, mas foi insuficiente para atender à demanda -o estado tem 853 municípios e registrou taxa de ocupação de 88,5% nos leitos de UTI públicas reservados à Covid-19, nesta quarta (14).

O governo mineiro diz que o Ministério da Saúde mudou o procedimento para requisição dos insumos e não tem conseguido distribuí-los em tempo hábil. A solução paliativa da gestão Zema tem sido remanejar o estoque para os hospitais mais necessitados.

Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, calcula que os bloqueadores musculares repassados pelo estado devem durar até o fim de semana. A prefeitura conseguiu empréstimo com outro município para o sedativo Midazolam, para um ou dois dias. A alternativa tem sido tentar transferir pacientes.

Em Ibirité, 18 dos 20 leitos de UTI do hospital de campanha estão ocupados. A prefeitura também cadastrou pacientes na Central de Regulação de Leitos do SUS, tentando transferência para locais onde haja estoque, e tem recorrido a empréstimos -nesta quarta, conseguiu 110 ampolas de Midazolam, que devem durar até sexta-feira.

“É uma situação de terror, a gente está tentando de tudo para não ver uma situação dessas acontecer, de pacientes acordarem, disputarem com o tubo e a gente perder vidas”, diz a secretária municipal de Saúde, Carina Bitarães.

Betim, também na Grande BH, diz que dos 17 medicamentos usados em intubações, dois têm estoque para mais quatro dias e, outros dois, para mais sete. No Cecovid4 (Centro de Cuidados Intensivos), a cada dez internados em UTIs, oito estão intubados. Dos 110 leitos no local, 104 estão ocupados.

A prefeitura diz não ter sido contemplada pelo governo do estado na distribuição dos kits intubação e negocia com fornecedores. O município também estuda medidas judiciais para tentar restabelecer o fornecimento.

“Vivemos o momento mais crítico em relação aos sedativos”, diz o secretário adjunto de Saúde, Augusto Viana. “Temos uma capacidade para mais 50 leitos de UTI, não estamos fazendo a expansão em função dessa instabilidade em relação à distribuição dos sedativos.”

Belo Horizonte diz que conseguiu um pequeno abastecimento graças a doações, mas que o consumo na Rede SUS tem sido muito alto.

Em reunião na segunda-feira (12), representantes da indústria de insumos relataram ao Ministério Público de Minas Gerais a dificuldade de abastecimento devido ao consumo até 10 vezes maior. A instituição tem acompanhado a questão e feito negociações para aquisição por parte do poder público.

Segundo o promotor Luciano Moreira de Oliveira, coordenador do CAO-Saúde (Centro de Apoio Operacional de Defesa da Saúde), em outra reunião, um representante do Ministério da Saúde disse que cada instituição deve manter estoque para sete dias, acima disso seria luxo no momento atual e deve ser repassado a quem não tem.

“Hospitais estão acostumados a trabalhar com estoques de 60 dias, então, quando chega a sete dias, de fato, é uma situação de desespero. Vamos ter que, nesse momento, manter estoques mínimos para conseguir atender a todos”, afirma o promotor.

Triângulo Mineiro

Uberaba conseguiu estender o estoque por alguns dias, no Hospital Regional, graças à chegada de medicamentos enviados pelo governo do estado e de cerca de 6 mil ampolas de anestésico viabilizadas pela prefeitura de Manaus -a cidade mineira recebeu pacientes da capital do Amazonas durante a crise de janeiro.

A unidade, referência para atendimento de casos do novo coronavírus na região, tem enfrentado dificuldade para adquirir os insumos, segundo o diretor Frederico Ramos. “A gente faz processo de compra e dá vazio, não estamos conseguindo encontrar fornecedores”, diz ele.

Na última semana, o hospital, que tinha em média 35 a 40 pacientes intubados em leitos de UTI, limitou a capacidade para 25 pacientes, para evitar falta de medicamento.

Em Uberlândia, cidade com a segunda maior população do estado e que tem 100% de ocupação nas UTIs da rede pública municipal, a prefeitura afirma não há desabastecimento porque adquiriu medicamentos em tratativas diretas entre o prefeito, Odelmo Leão (PP), e laboratórios.

“Com um estoque superior, [a prefeitura] chegou a emprestar medicamentos aos hospitais privados, entretanto, não consegue fazer empréstimos a outras cidades, tendo em vista que a dificuldade de compra e o desabastecimento são em âmbito nacional”, afirma a nota encaminhada à reportagem.

Nesta quarta, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública pedindo à União, ao Estado de Minas Gerais e ao município de Uberlândia, entre outros pontos, que seja assegurado o fluxo de medicamentos.

O procurador Cléber Eustáquio Neves, que assina o documento, questiona ainda a gestão de leitos no município, dizendo que a secretaria de saúde “não adotou medidas para mitigar efeitos deletérios da pandemia”.

Na segunda-feira, o secretário estadual de saúde de Minas, Fábio Baccheretti, reforçou a necessidade de reabastecimento dos estoques de sedativos e bloqueadores neuromusculares para atender UTIs do estado em uma reunião virtual com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Nos últimos dias, segundo o secretário, o governo distribuiu medicamentos com base na Rede Solidária, que identificava locais com estoque que poderia ser repassado a outras regiões.

“Está ainda muito difícil, mas a nossa expectativa é que a gente regularize nas próximas semanas esse ressuprimento”, afirmou.

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Fonte: BHAZ

Redação

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